24.9.24

ROTA VICENTINA 24/09/2024 Porto Covo - Vila Nova de Milfontes [19,6 km]

 


Durante a noite, ouvi o oceano a rugir, bem como um par de corujas que estiveram a meter a piadeira em dia. Sim, é verdade, não dormi muito bem. Depois de ler um pouco de O Diário de Edith, da Patricia Highsmith (perfeita companhia para um périplo solitário!), apaguei o frontal, deviam ser umas 21h e tal. Por volta da 1h30 acordei e fiquei a ouvir as corujas até às 5h! Mau material, é no que dá. Não tenho nem um colchonete suficientemente confortável nem um bom saco-cama (este é mais velho do que Quéops), e enfim, já não tenho aquele corpo elástico dos 20 anos, quando nem precisava de colchonete para ter uma noite de sono profundo numa tenda.

Acordei definitivamente às 6h30, mas abrindo a porta da tenda e espreitando lá para fora, topei com a noite mais escura, que nem o brilho pressentido do olhar das corujas, que entretanto tinham fechado a matraca, aclarava. Na verdade, nesta altura só amanhece por volta das 7h30. Por isso, fiz um cafezinho instantâneo, que bebo frio pois não trouxe chaleira, espetei com o frontal na testa e escrevi umas linhas. Quando tive luz suficiente, comecei a desmontar a casa e a arrumar a tralha e às 8h já estava a sair do parque de campismo.


Antes de seguir caminho pela Rota, fui beber uma bica a uma pastelaria na rua principal de Porto Covo, a Rua Vasco da Gama, e não resisti a um queque gigante como guarnição. Uma caminheira de topo precisa de combustível! Porto Covo é uma aldeia bonita, viva e simpática, onde me senti sempre muito bem.

Depois, meti-me ao trilho, e passados 15 minutos já estava a pensar no que é que poderia deixar pelo caminho para aliviar a minha carga... talvez o que é mais pesado... a tenda! Não é boa ideia. Seguindo em frente. Foi um trilho muito exigente - condição agravada pelos 15 quilos que levava às costas - devido ao piso, quase exclusivamente de areia, e a certas subidas e descidas íngremes nas rochas, que se tornavam muito desafiantes com o peso que eu transportava.

No entanto, a magnificência inenarrável da paisagem ao longo de todo o percurso compensou bem o esforço. Falésias-esculturas, cinzeladas pelo tempo e pelos elementos; gaivotas passando à minha altura, pois que sobre aqueles penhascos eu aproximava-me do seu patamar, com as asas escancaradas para a liberdade; pequenas baías, entre ousados promontórios (na ponta dos quais vislumbrei pescadores lúdicos que se aventuravam ao sargo), formavam as mais idílicas e acolhedoras praias.






A primeira praia que avistamos, depois de partir de Porto Covo, é a praia da Ilha do Pessegueiro, que é como penetrar numa tela do Romantismo. Aquela ilha, onde habitam as ruínas de um fortim e gralhas-pretas.




Quase a chegar ao Porto das Barcas de Vila Nova de Milfontes, ainda tive direito a vislumbrar um golfinho, que brincava sozinho - como eu!



Cheguei ao Porto das Barcas às 13h e à vila de Milfontes às 13h30. Foi uma caminhada de 5 horas.

Fui direta para o Parque de Campismo de Vila Nova de Milfontes, que nada tinha a ver com o luxo do da noite anterior em Porto Covo, mas, na sua simplicidade, é limpo e tem tudo o que é necessário e só me custou 10,05 € pela noite! 

Calcorreando as ruelas da vila, deparei com um sinal que partilho aqui convosco, pois parece-me importante que as pessoas estejam informadas sobre o impacto negativo desta mania de amontoar pedras, ao jeito de mariolas, na natureza, como que para simbolizar qualquer coisa mais ou menos espiritual, nem sei. O ser humano não sabe mesmo estar com as mãos quietinhas, tem de meter o dedo em tudo.



23.9.24

ROTA VICENTINA 23/09/2024 São Torpes - Porto Covo [10 km]

Com uma mochila de 15 kg às costas parto para uma jornada solitária de oito dias pela Rota Vicentina!

Partida de Setúbal para Sines com o autocarro da Rede Expresso das 08h15. O autocarro chegou com 25 minutos de atraso. Vem de Lisboa e por isso apanha com os habituais engarrafamentos matinais na zona da ponte 25 de Abril. Estou sentada no último banco do autocarro, lugar de promoção: paguei 5,45 € pelo bilhete. Se tudo correr bem, devo chegar a Sines por volta das 10h45. Depois, ainda terei uma caminhada de 1h30 até ao início do trilho, na praia de São Torpes. Já no trilho, será uma caminhada de 10 km até Porto Covo. Conto chegar ao parque de campismo lá pelas 15h. 

A caminhada de hoje acabou por ser muito cansativa devido aos 9 km iniciais desde a paragem da Rede Expresso em Sines até à praia de São Torpes. Desci por ruelas até à baiazinha onde se encontram os portos de pesca e de recreio de Sines (uma pequena baía bem bonita) e daí segui pela beira da A26-1, o que não foi boa ideia! De início havia uma ciclovia na berma da autoestrada e estava confiante de que poderia continuar por ali, poupando em quilómetros. Mas a partir de certa altura deixou de haver caminho pedonal e eu cortei para uma estrada municipal, a M1109, e por ali prossegui. Caminhar à beira daquela autoestrada foi o pior momento do dia e, apesar de exequível, desaconselho vivamente.

Praia Vasco da Gama, Sines.
                                   
Da praia Vasco da Gama avista-se o porto de pesca
de Sines.

O trilho em si, já com os pés na Rota Vicentina, foi magnífico. Vamo-nos afastando da zona industrial de Sines, por uma costa xistosa e apaziguante, para penetrar no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Há praias deslumbrantes ao avizinharmo-nos de Porto Covo, como a da Samoqueira - que cria uma piscina natural muito bonita!


Afastando-me da zona industrial de Sines. Ao longe,
o terminal de contentorese o terminal de GNL do Porto de Sines.
    
Praia da Samoqueira.

Estou no Parque de Campismo Costa do Vizir Beach Village. Vim cá parar por engano, pensando que me dirigia para o parque de campismo municipal! É um parque de campismo fantástico, mas caro. Paguei 27,00 € por uma noite. No entanto, sabe bem estar num ambiente sossegado. Tomei um duche retemperador, com água quentinha e excelente pressão, nuns balneários limpos e espaçosos.

Balneários do Camping Costa do Vizir.

A minha humilde moradia por esta noite.

Um jantar fresquinho ao pôr-do-sol,
numa área do parque com mesas para piquenique.

Amanhã a saga continua com uma caminhada de cerca de 20 km até Vila Nova de Milfontes. Agora vou aconchegar-me no meu frágil bunker com a minha companheira desta viagem, a Edith, ao som das vagas oceânicas ao longe e das insones corujas aqui por cima, entre as ramagens dos longos eucaliptos que me abrigam.