 |
Na Ponta da Atalaia assisti, mais uma vez, à temeridade dos pescadores de sargo e perceves |
Acordei cedinho, como habitual, por volta das 05h30. Bebi os meus dois cafés instantâneos frios, organizei as coisas dentro da tenda, fui à casa de banho e, quando houve claridade suficiente, lá pelas 07h, desmontei a tenda e arrumei tudo dentro da mochila. Às 08h, estava a sair do parque de campismo.
Este trilho foi mais estimulante do que o anterior, mas não há dúvida de que já não são trilhos tão ímpares e cativantes como os que ficaram para trás, no início da Rota.
Deixo uma recomendação de atalho para quem pernoite neste parque de campismo e queira voltar para a Rota sem passar por Aljezur (como eu já tinha calcorreado a vila na tarde anterior, dispensava ter de lá passar de novo) e evitando uns 4 quilómetros sem grande interesse à beira de uma estrada municipal. Ao sair do parque de campismo, pode seguir-se pelo caminho da Praia da Amoreira, um estradão que está sinalizado. A partir dessa praia, prosseguindo na direção de Monte Clérigo, reencontra-se o trilho da Rota. Creio que possa ser uma alternativa agradável e mais tranquila.
Este troço da Rota limpa as vistas, atravessando belas praias, bem populadas de surfistas, até culminar na magnífica Ponta da Atalaia.
Monte Clérigo é uma praia de vasto areal, pontilhada pelos tons terrosos da areia e das arribas e pelo branco da espuma das ondas impetuosas. Com a maré vazia, revela-se uma convidativa plataforma rochosa, onde nos podemos banhar entre as suas piscinas, resguardados da força das ondas.
 |
| Praia de Monte Clérigo |
Gostei especialmente de me passear pelas vielas da povoação, admirando as acolhedoras casas de veraneio e os pitorescos terraços de onde os afortunados veraneantes podem desfrutar do panorama.
 |
Casa de veraneio na povoação de Monte Clérigo |
 |
Que tal parar por aqui umas horitas, e ler uns capítulos do meu livro? |
A Ponta da Atalaia é que me deixou boquiaberta, de tanta beleza no seu estado natural. Respira-se liberdade naquela ponta selvagem onde reencontramos a pureza de ser.
É neste cabo que encontramos as ruínas do Ribat da Arrifana. "Ribat significa mosteiro muçulmano fortificado, e é isso mesmo que se encontra representado na Ponta da Atalaia, o Ribat da Arrifana. Este sítio, por muitos considerado 'quase mítico' encontra-se mencionado na informação literária medieval islâmica, como sendo um espaço de culto associado ao mestre sufi Ibn Qasi (1100-1151). Este emblemático local terá sido erguido por volta do ano de 1130 e abandonado a 1151, depois do assassinato do seu fundador e perseguição dos seus seguidores. Sabe-se que este é o segundo
Ribat descoberto na Península Ibérica - o primeiro foi encontrado em Guardamar (Alicante, Espanha)." [texto retirado do site do
projeto SciTour]
 |
Ruínas do Posto da Guarda Fiscal, junto aos vestígios do Ribat |
Ainda bem que temos este poiso onde retemperar o espírito e as pernas, pois o que se segue é um extenuante caminho dunar até à Arrifana!
Nem na Arrifana nem nas proximidades há parque de campismo, por isso aluguei uma cama num beliche na Endless Summer Surf House, por 37,00 €.
 |
A minha cama por uma noite na Arrifana |
Os meus companheiros de casa e de quarto eram todos alemães, bastante mais jovens do que eu, por isso, confesso que não houve grandes conversas! Mas a minha caminhada solitária pela vila valeu por todas as conversas possíveis! Bebi umas cervejinhas em dois lugares que recomendo: Bar da Praia (vista privilegiada para a praia; imperial Heineken 2,60€) e Ti Raul Surfrental and Bar (vista magnífica para o pôr-do-sol; imperial Heineken 2,50€). Para além de haver alemães por todo lado, a imperial disponível nos cafés e bares é geralmente a holandesa.
Depois, sem grande vontade de voltar para o nicho dos adolescentes alemães, jantei pela primeira vez fora (tenho sempre comprado víveres num supermercado e jantado "em casa"). E foi dos melhores momentos deste meu solilóquio caminheiro. Jantei um wrap gigante com falafel no
A La Bilal, acompanhado de um copo de vinho tinto. Embalada por música árabe envolvente e meditativa, servida pelo próprio Bilal (creio eu!), que é um ser inspirador na sua serenidade, sentada numa esplanada com vista para o céu crepuscular, num lugar de pouca afluência por ser gerido por um homem que não se verga ao turismo obtuso, agradeci, mais uma vez, ter um corpo - precioso invólucro da minha consciência - que me oferece as condições necessárias para poder enveredar por estas aventuras.
Sem comentários:
Enviar um comentário