29.9.24

ROTA VICENTINA 29/09/2024 Aljezur - Arrifana [17 km]


Na Ponta da Atalaia assisti, mais uma vez, à temeridade
dos pescadores de sargo e perceves

Acordei cedinho, como habitual, por volta das 05h30. Bebi os meus dois cafés instantâneos frios, organizei as coisas dentro da tenda, fui à casa de banho e, quando houve claridade suficiente, lá pelas 07h, desmontei a tenda e arrumei tudo dentro da mochila. Às 08h, estava a sair do parque de campismo.

Este trilho foi mais estimulante do que o anterior, mas não há dúvida de que já não são trilhos tão ímpares e cativantes como os que ficaram para trás, no início da Rota.

Deixo uma recomendação de atalho para quem pernoite neste parque de campismo e queira voltar para a Rota sem passar por Aljezur (como eu já tinha calcorreado a vila na tarde anterior, dispensava ter de lá passar de novo) e evitando uns 4 quilómetros sem grande interesse à beira de uma estrada municipal. Ao sair do parque de campismo, pode seguir-se pelo caminho da Praia da Amoreira, um estradão que está sinalizado. A partir dessa praia, prosseguindo na direção de Monte Clérigo, reencontra-se o trilho da Rota. Creio que possa ser uma alternativa agradável e mais tranquila.


Este troço da Rota limpa as vistas, atravessando belas praias, bem populadas de surfistas, até culminar na magnífica Ponta da Atalaia.

Monte Clérigo é uma praia de vasto areal, pontilhada pelos tons terrosos da areia e das arribas e pelo branco da espuma das ondas impetuosas. Com a maré vazia, revela-se uma convidativa plataforma rochosa, onde nos podemos banhar entre as suas piscinas, resguardados da força das ondas.

Praia de Monte Clérigo

Gostei especialmente de me passear pelas vielas da povoação, admirando as acolhedoras casas de veraneio e os pitorescos terraços de onde os afortunados veraneantes podem desfrutar do panorama.

Casa de veraneio na povoação
de Monte Clérigo

Que tal parar por aqui umas horitas, e ler uns capítulos
do meu livro?

A Ponta da Atalaia é que me deixou boquiaberta, de tanta beleza no seu estado natural. Respira-se liberdade naquela ponta selvagem onde reencontramos a pureza de ser.



É neste cabo que encontramos as ruínas do Ribat da Arrifana. "Ribat significa mosteiro muçulmano fortificado, e é isso mesmo que se encontra representado na Ponta da Atalaia, o Ribat da Arrifana. Este sítio, por muitos considerado 'quase mítico' encontra-se mencionado na informação literária medieval islâmica, como sendo um espaço de culto associado ao mestre sufi Ibn Qasi (1100-1151). Este emblemático local terá sido erguido por volta do ano de 1130 e abandonado a 1151, depois do assassinato do seu fundador e perseguição dos seus seguidores. Sabe-se que este é o segundo Ribat descoberto na Península Ibérica - o primeiro foi encontrado em Guardamar (Alicante, Espanha)." [texto retirado do site do projeto SciTour]

Ruínas do Posto da Guarda Fiscal,
junto aos vestígios do Ribat

Ainda bem que temos este poiso onde retemperar o espírito e as pernas, pois o que se segue é um extenuante caminho dunar até à Arrifana!

Nem na Arrifana nem nas proximidades há parque de campismo, por isso aluguei uma cama num beliche na Endless Summer Surf House, por 37,00 €.

A minha cama por uma noite
na Arrifana

Os meus companheiros de casa e de quarto eram todos alemães, bastante mais jovens do que eu, por isso, confesso que não houve grandes conversas! Mas a minha caminhada solitária pela vila valeu por todas as conversas possíveis! Bebi umas cervejinhas em dois lugares que recomendo: Bar da Praia (vista privilegiada para a praia; imperial Heineken 2,60€) e Ti Raul Surfrental and Bar (vista magnífica para o pôr-do-sol; imperial Heineken 2,50€). Para além de haver alemães por todo lado, a imperial disponível nos cafés e bares é geralmente a holandesa.

Depois, sem grande vontade de voltar para o nicho dos adolescentes alemães, jantei pela primeira vez fora (tenho sempre comprado víveres num supermercado e jantado "em casa"). E foi dos melhores momentos deste meu solilóquio caminheiro. Jantei um wrap gigante com falafel no A La Bilal, acompanhado de um copo de vinho tinto. Embalada por música árabe envolvente e meditativa, servida pelo próprio Bilal (creio eu!), que é um ser inspirador na sua serenidade, sentada numa esplanada com vista para o céu crepuscular, num lugar de pouca afluência por ser gerido por um homem que não se verga ao turismo obtuso, agradeci, mais uma vez, ter um corpo - precioso invólucro da minha consciência - que me oferece as condições necessárias para poder enveredar por estas aventuras.


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